terça-feira, 22 de maio de 2012

Da articulação dos ossos

Não há nada de novo
Exceto a vontade
Da articulação dos ossos
Como das frases
Que me frisam desde os oito
Anos de idade
Não me sinto tão afoito
Quanto eu era nalgumas fases
Agora ando e me encontro
Já fizemos as pazes.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Colírio, delírio e atenção

Eu não abro de forma imediata
Qualquer carta
Que venha para mim
Correspondência de banco
Quase corresponde a um documento em branco

Eu não fecho logo
Os meus olhos
Na hora de dormir
Colírio, delírio e atenção
São propícios à visão.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Heroicos versos inúteis

O pólen da polêmica
Vira súdito de súbito
Da tradicional novidade
O bônus de viajar de ônibus
É ser guiado por sonhos
Apesar da realidade
Eu quero andar
Com as nuvens
Sobre o mar
Entre túneis
Muros, pontes
E horizontes
De heroicos versos inúteis
De bicicleta
E a pé, com fé
Na poesia cética
Que me deixa a vista aberta
E num piscar cega.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Festas, jantares e churrascos

Sempre fico ressabiado
quando me convidam
para festas, jantares e churrascos
onde cada um fala como venceu na vida

Eu arroto picanhas e cervejas
em vez de vitórias,
tenho asco de sorrisos mascarando invejas:
ainda sigo vivo pelas memórias

Cultivo amizades de longas datas,
guardo fotografias, livros, agendas,
provas, cadernetas, cadernos e a alma farta
de propostas para pô-la à venda.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Desurbanizar

É preciso, mais do que nunca, desurbanizar,
estou asfixiado desta verticalização tamanha,
torna o horizonte mais longe do céu e do mar:
onde estão as casas e as coisas da minha infância?

A especulação imobiliária
vai imobilizar o fluxo,
a cidade está tão inchada
quanto os bolsos dos políticos com seus negócios escusos.

Em vez de arvoredo,
uma selva de cimento,
o que não salva ninguém do medo
do cotidiano violento:
eu quero entrar numa máquina do tempo
se tudo virar um só excremento.

Navios nas minhas costas

Transporto navios
nas minhas costas
e dos meus gritos
poucos gostam,
lírico, eu me silencio...

Ninguém é vazio:
sempre há as respostas
quando me inquiro
abrindo as portas
e as janelas do espírito.

Eu não sou um desejo involuntário
nem um risco desnecessário,
estou fora deste itinerário,
se ainda não saí, eu paro,
espero, espirro e me depuro.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Mais doçura e menos açúcar

Apesar da sobra
Da pressão própria dos sais
Da insônia insossa
Vou dormir e domar
A sede toda
Bebendo o mar
Como quem sonha
Com a cor do ar
O acordo da onda
Com o radar
Para que a sonda
Apure seu paladar
Por uma vida sabiamente saborosa:
Mais doçura e menos açúcar
Quiçá eu possa,
Oxalá!